ao longo da avenida

"O tempo das suaves raparigas / é junto ao mar ao longo da avenida" - Ruy Belo

sexta-feira, abril 30

always obey pai mei 



tarantino confirma porque é um génio. conhecedor profundo do imaginário americano, glorifica-o ridicularizando-o. vol. 2 é mais do mesmo, mas melhor. mais refinado, mais sórdido, mais realista. tocando no coração e na espada afiada ao mesmo tempo. é voltar ao templo de shaolin sem sair do deserto de el paso ou visitar um bordel mexicano (pleno de guitarradas) sem esquecer os cinco pontos de pressão no coração, de pai mei. a noiva reconcilia-se com a vida e ri. ri muito. sabemos porque ri?

porque tarantino toca na essência de uma américa imaginada. recriada por assassinos sem escrúpulos mas que ama os seus filhos como ninguém. méxico e oriente são os dois azimutes de uma cultura que quer fugir ficando. ou melhor, sonhando. e tarantino faz-nos sonhar.

01:14

quarta-feira, abril 28

tudo passou definitivamente 

"As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudades
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir

Há gente que fica na história
da história da gente
e outras de quem nem o nome
lembramos ouvir

São emoções que dão vida
à saudade que trago
Aquelas que tive contigo
e acabei por perder

Há dias que marcam a alma
e a vida da gente
e aquele em que tu me deixaste
não posso esquecer

A chuva molhava-me o rosto
Gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
Já eu percorrera

Ai... meu choro de moça perdida
gritava à cidade
que o fogo do amor sob chuva
há instantes morrera

A chuva ouviu e calou
meu segredo à cidade
E eis que ela bate no vidro
Trazendo a saudade"

chuva - mariza

23:06

tão perto do farol 

tão perto do farol da praia do forte e da
aldeia de pescadores sentado numa rocha
molho os pés com a certeza absoluta de que
eles são os meus pés e não a poesia
estes quadros incompletos de palavras incertas
que hesito em juntar ou que mesmo
arruino sem saber bem o que fazer
com tanto sol e areia e visões e canções
de versos longos e belos
e conversas que parecem não querer terminar
nem mesmo quando o sol se põe e a vida
se suspende diante da noite e das luzes ténues

tão perto do farol olho o mar
e sei que se fosse razoável ou mesmo
possível nadar até ao outro lado
como o escravo que amava alina e que morreu
na bahia de todos os santos
tu não me esperavas

tão perto do farol eu sei porque tudo
continua igual
porque a grandeza do mar
ou a vida
me permite pensar que contigo fui feliz

enquanto houver mar o teu nome
terá o sabor do sal
ingenuamente eu sei

mas amando
e sem palavras certas
não sei fazer mais que te amar

00:01

segunda-feira, abril 26

os namorados 

amanhece na bahia enquanto ouço "chega de saudade"
sons suavemente delicados que dão cor ao sol
que brilha lá no alto com a força de um verão
que teima em não terminar nunca ou mesmo
que parece perpetuar essa dança tão sensual dos
namorados palavras trocadas em surdina um
ou dois beijos repentinos na boca e no rosto
pele húmida que reflecte a natureza da vida
dos homens e mulheres que amam sem espaço
para que o silêncio ou o egoísmo se levantem
como uma nuvem que cobre o céu e o sol

lembras-te de mim das coisas que te quis dizer
lembras-te dos silêncios amor dessas linhas
que deixámos em branco para que os pássaros
pudessem falar ao entardecer da poesia que não
soubemos escrever das coisas que esquecemos depois

a recordação do vazio do que ficou por fazer
dos abraços ternos
o que são agora?
(não faz mais sentido
chorar se apenas fomos namorados longe da bahia)

23:01

sexta-feira, abril 23

um breve diálogo ao som da poesia de vinicius 

"- porque é que não consegues apaixonar-te?
- porque ainda te amo.
- mas quantos lugares tens no coração?
- apenas o teu.
- e achas isso possível?
- diz-me tu... ele é teu."

17:37

quarta-feira, abril 21

largo do pelourinho, salvador da bahia 



é este o coração de uma áfrica transplantada há 500 anos. o essencial manteve-se. a música, os rostos, o ritmo, o calor.

mas naquelas escadas também me lembrei de ti.

23:58

segunda-feira, abril 19

poema da batucada 

há muitos lugares por percorrer na
minha alma e na tua rua
que nunca visitei
mas aqui na praia do forte
ao som do forró do nordeste
enquanto suo e chove uma
água tropical que silencia o
canto agreste dos pavões
penso
que este era apenas o
único lugar
(porque é aqui que sou)
onde a tua presença ou
na realidade a tua ausência
faz sentido

queria apenas ir junto do mar
dizer baixinho ao luar
como gosto do teu sorriso
e como a recordação dos teus
lábios me lança subitamente
na comunhão mais profunda
com a chuva que cai

apesar de não verter uma lágrima
e tu não estares aqui

21:36

domingo, abril 18

poema a uma baiana 

como é difícil descrever o teu rosto
entrevisto por entre os pares que
dançavam o forró no aeroclube
jardim de alah um pouco antes de itapuã
de cabelo apanhado você sorria
e eu não sabia o que fazer

se me apaixonar a noite será
longa demais se fechar os olhos
não saberei quem sou
perdido no calor húmido da
bahia
viajante perdido dessa lisboa
triste que você decerto não
conhece

eu não te conheço mas
reconheço o teu olhar agora
e o reconheceria em qualquer
lugar onde fosse feliz
porque apesar de tudo sei que
o nosso caminho é um
trilho comum

(você olha discretamente em
busca de seu amor e eu
não sei onde está o meu)

quando jamais a minha
vida amanhecer quero morrer
contigo na bahia
e dançar até o dia chegar
de mansinho trazendo esse
sol redentor que brilha na
sua pele doce

quer vir?

23:56

sexta-feira, abril 9

amanhã, este é o meu destino 



feliz páscoa. a avenida regressa daqui a uma semana. com os sabores do brasil. e muitas casas para erguer.

00:04

terça-feira, abril 6

nos 10 anos da morte de kurt cobain 

dói-me o estômago. o kurt sofria do mesmo. cronicamente. por isso procurava um refúgio que lhe havia de ser fatal.

nunca esquecerei uma tarde que passei a ouvir na rádio uma homenagem no primeiro aniversário da sua morte. eram tempos onde falávamos da morte. do seu olhar triste. do nossos olhares conformados a uma vida sem saída aparente. mas os nirvana acabaram e a vida continuou. apesar da nossa tristeza.

22:54

carta 

é na doença que os meus sentidos ficam susceptíveis de serem violados pela tua recordação. como uma carta que nunca escrevi e que agora construo sílaba por sílaba enquanto o meu corpo sofre.

"Desculpa se te fiz fogo e noite
sem pedir autorização por escrito
ao sindicato dos Deuses...
mas não fui eu que te escolhi.
Desculpa se te usei
como refúgio dos meus sentidos
pedaço de silêncios perdidos
que voltei a encontrar em ti..."

toranja

22:49

sexta-feira, abril 2

das janelas dos comboios 

quando ia com a minha mãe a lisboa, de mão dada, atento e ingénuo, tão pequeno como só as crianças o conseguem ser, o lugar da janela era sempre meu. ir à janela continua hoje a ser apenas uma forma de deixar que o olhar se prolongue para além de mim. e perco-me. nas luzes da noite ou banhado pelo sol. esqueço-me da minha estação.

de que serve viajar sem ver o espaço que ocupa o tempo. mesmo quando conhecemos de cor o percurso, a liberdade está no olhar e não no corpo preso a uma carruagem fria que se move sem eu querer.

00:07

quinta-feira, abril 1

falámos no caminho 



e durante o silêncio
olhei mais uma ou duas vezes para ti
sem dares por nada
sem reparares nos meus lábios a sorrir

para quê?

depois olhei pela janela
a tarde morria lentamente

as árvores cruzavam o teu olhar
demasiado longe daqui

00:11